As charges devem ser analisadas como uma ferramenta necessária para a compreensão social de algum acontecimento, por carregar em si, através de uma espécie de “pacote complexivo” a imagem com a mensagem a ser transmitida, desencadeando com o humor de suas representações, o estímulo eficaz que contribuí ao entendimento das informações mais problemáticas.
Os primeiros vestígios do uso da ilustração na mídia, veio a ser no Estados Unidos no século XVIII e as mensagens transmitidas através de folhetins – normalmente -, tinham a intenção de fortalecer o nacionalismo americano para que se alcance a independência estatal.
No Brasil, o uso das ilustrações em primeiro momento, era apenas para transmitir cenas rurais, urbanas, da família real e de escravos. Com o passar dos anos, os ilustradores nacionais foram aprimorando sua técnica, conforme tinham contato com entendidos do meio no exterior. Das simples ilustrações dos pasquins da família real até a contemporaneidade das charges nos jornais de grande circulação, percebemos uma modificação dos traços das caricaturas e uma dinamicidade na forma à qual transmiti-se a mensagem.
As charges são muito utilizadas no meio jornalístico atual por ser de fácil compreensão e conseguir traduzir com exatidão a mensagem satírica, porém muito crítica, em relação a diferentes fatos graficamente.
Delimitando-nos no cunho político, observa o uso da charge desde os primórdios do século XVIII quando os Estados Unidos ainda buscava sua independência, e também nas manifestações artísticas da França que eram sacralizadas pelas suas revoluções.
No Brasil parece que desde sempre, a história das charges confunde-se com a trajetória dos primeiros atos jornalísticos, já que suas primeiras ilustrações eram para informar os escândalos da corte real. No cenário atual não é diferente diariamente nos jornais impressos de grande circulação, nos sites que informam sobre política e em alguns programas televisionados sempre estão lá alguma charge que vai instigar curiosidade no observador e o levará a descobrir os desfalques dos cofres públicos, as viagens numerosas do Sr. Presidentes Luís Inácio Lula da Silva ou a importância de não vender o seu voto.
Para que se seja possível uma compreensão geral da importância das charges como formadora de opinião popular, estarão dispostos ao longo do texto conceitos específicos sobre charge.
A charge crítica – opinativa
A construção de uma charge é totalmente opinativa, pois dentro dela estará a inferência do autor, ou seja, sua impressão sobre o que viu expressa na caricatura. A cumplicidade entre o emissor e receptor é indispensável para a compreensão global da mensagem, pois quando o autor transforma pessoas públicas reais em personagens, a expectativa é de que o leitor seja capaz de identificar quem é o caricaturado e conheça na íntegra, ou pelo menos parte dela, a história a ser satirizada na charge. Portanto, a charge adquiri valor crítico e opinativo, pelo fato do autor ter um posicionamento frente a algum fato e expô-lo em sua obra.
O público alvo das charges
O cenário atual das charges está bem diversificado em seu público, e isso é um bom sinal, pois demonstra que não existem barreiras amplas para que elas não venham a ser conhecidas.
Antes, as charges eram vistas apenas pelo público elitizado que tinham acesso aos jornais. Com a evolução das charges elas vieram a se popularizando ganhando espaço nas revistas e até nos jornais televisados em horário nobre com pequenas aparições. Agora com o advento da internet a visualização de conteúdo relacionado à charge está viabilizada, é possível conhecer em período cronológico ou visualizar em sites específicos charges que satirizam a notícia principal do dia.
Mesmo tendo agora uma ramificação ampla entre os meios de comunicação dispensada aos admiradores das charges os “produtos alvo” mantêm-se tradicionalmente apontado para os leitores de jornais e revistas.
Humor político – fácil compreensão
Falar de política é algo que exige um vocabulário extremamente culto e codificado por siglas de partidos, nomes “nunca” lembráveis de partidários e acompanhados de uma descrição interminável das atrocidades feitas pelos políticos. Não. Pelo menos, não, nas charges.
O humor visto nas charges mostra que é possível localizar-se politicamente sem estar delimitado à jargões, porém não é correto afirmar que se está isento de consultar um jornal para saber do que se trata as informações contidas nas caricaturas, com um estilo coloquial e cômico elas são capazes de ironizar a realidade de algo que tanto nos afligi: a política.
A capacidade de transpor humor, junto à fixação da mensagem com imagens, comove um fenômeno as charges, pois o seu conteúdo não deixa de ser consistente para informar. Justamente essa “leveza-crítica” que há nas charges, caracteriza o seu sucesso, pois ela não precisa dizer o que quer numa precisão de palavras, a mensagem fica anexada no que consideramos como “pacote complexivo”, que é equivalente a caricaturas mais a legenda, tornando o humor político facilmente compreendido com as sugestões, às vezes, implícitas no conteúdo global das charges.
Charge política - importância na conscientização popular
A exatidão na transmissão das mensagens através das charges é surpreendente. Não existe a necessidade de ser bacharel para compreender o que se quer transmitir. O nível conscientização de uma charge está na criticidade e criatividade do autor, se esse, dispor informações que possam mudar o rumo de um voto, mostrando que um candidato da prefeitura foi pego com dólares desviados dos cofres públicos na cueca, com certeza, isso atingiria desde o jovem ao senhor eleitor, podendo mudar o ciclo do seu voto para um candidato não corrupto. Essa é a importância, trazer à tona, revelar de maneira dinâmica com a imagem, que viabiliza o processo de retenção persuasiva e mental da mensagem explícita ou implícita nas charges, retirando o leitor de uma espécie de caverna mentirosa, trazendo-o para a realidade reformulando sua maneira de agir como ser consciente e interventor do meio social que atua.
Três momentos da charge internacional e nacional
- Século XIX: Zé Povinho
Criado pelo português Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) em 1875, Zé Povinho, era o personagem das charges que satirizavam o governo português e seus deslizes políticos, sociais e econômicos. Durante sua estadia no Brasil colaborou para diversos segmentos através de suas charges a também fundou alguns jornais importantíssimos.
Entre suas obras mais famosas estão: “A Grande Porca” aonde todos mamam na política; “O ultimatum” que representa o cenário português em 1890 quando a Inglaterra pressionava a retirada dos portugueses nas extremidades da África; e fundou os jornais “Psit” e o “Besouro”.
“... não estamos filiados em nenhum partido; se o estivéssemos, não seríamos decerto conservadores nem liberais. A nossa bandeira é a VERDADE. Não recebemos inspirações de quem quer que seja e se alguém se serve do nosso nome para oferecer serviços, que só prestamos à nossa consciência e ao nosso dever, - esse alguém é um infame impostor que mente.” ( O Besouro, 1878)
- Século XX: Henfil
O brasileiro Henrique de Souza Filho (1944 – 1988), era jornalista, escritor, diretor e ator de cinema e cartunista. Sempre acentuou desde o início de sua carreira o cunho de cartunista político, foi um excelente crítico social através das charges sempre tendo uma postura firme dentro do cenário nacional.Dentro das charges posicionou-se contra a Ditadura Militar, apoiou as Diretas Já e a anistia dos presos políticos.
Suas principais obras são: “Os fradinhos” e a Graúna, o Capitão Zeferino e o Orelhão fazendo sátiras nas caricaturas sobre a realidade nacional; “A Revista do Henfil (em co-autoria com Oswaldo Mendes)” no teatro; “ Tanga - Deu no New York Times” no cinema; “ TV Homem, do programa” na TV Mulher, na Rede Globo; e os livros “Hiroshima, meu Humor” (1976) “Diário de um Cucaracha” (1983), ”Dez em Humor” (coletiva, em 1984), ”Diretas Já” (1984), “Henfil na China’ (1984), ”Fradim de Libertação’ (1984), ”Como se Faz Humor Político” (1984) e ”Cartas da Mãe” (1986).
“Se não houver frutos
Valeu a beleza das flores
Se não houver flores
Valeu a sombra das folhas
Se não houver folhas
Valeu a intenção da semente”
Henfil
- Século XXI: A era Lula
Para falar sobre as charges contemporâneas, escolhemos um artista engajado em mostrar, de forma humorística e criativa, os processos políticos brasileiros.
Márcio Malta (mais conhecido como Nico), nascido em 1993, é um chargista conhecido por fazer críticas sociais, com ênfase na política. Como principais obras, ele tem: “Henfil – O humor subversivo” e “E agora Lula? – Charges de um desastrado governo”.
“Enxergo a charge como um instrumento de informação crítica e ao mesmo tempo descontraída. Por não ter compromisso com o real, pode inventar situações e inverter papéis. Nos veículos de comunicação a charge funciona como um auxílio à notícia, uma interpretação bem humorada dos fatos cotidianos. O chargista é um jornalista do traço.”
Nico